terça-feira, 18 de junho de 2013

Irmão feliz (II)


A esmola do pobre

Nos toscos degraus da porta
De igreja rústica e antiga,
Velha, trêmula e mendiga
Implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la, enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam
À distância, na alameda
Uma trajava de seda,
Doutra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre;
Ambas loiras e formosas;
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.

A rica, ao deitar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga e ao regaço
Uma esmola lhe lançou.
Ela recebe-a e a criança
Que a socorre compassiva,
Em prece fervente e viva,
Aos anjos encomendou.

De um ligeiro sentimento
Da vaidade possuída,
À criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
- O prazer de dar esmolas
A ti e aos teus não é dado;
Pobre como és, coitado,
Aos pobres e que hás de dar?

Então a criança pobre,
Sem más sombras de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E após, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se, ajoelha,
E a magra mão lhe beijou.

E a mendiga alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção.
É assim que a caridade
Do pobre ao  pobre consola.
Nem só da mão sai a esmola:
Sai também do coração.
(João de Deus)






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