segunda-feira, 29 de abril de 2013

Figueira x fruto


Mãe:
Eu sou uma figueira estéril.
Filhos:
Eu sou o fruto da sua figueira.

Berço

Recordo: um largo verde e uma igrejinha,
Um sino, um rio, um pontilhão e um carro
De três juntas bovinas, que ia e vinha
Rinchando alegre, carregando barro.

Havia, a escola, que era azul e tinha
Um mestre mau, de assustador pigarro...
(Meu Deus! Que é isto, que emoção a minha
Quando estas coisas tão singelas narro?)

Seu Alexandre, um bom velhinho rico,
Que hospedara a Princesa, o tico tico
Que me acordava de manhã, e a serra...

Com o seu nome de amor, Boa Esperança,
Eis tudo quanto guardo na lembrança
Da minha pobre e pequenina terra?
(Bernardino Lopes)


sábado, 27 de abril de 2013

Barco x remo


Mãe:
Eu  sou o barco sem remo.
Filhos:
Eu sou o remo do seu barco.

Marcha soldado

-Psiu! Não faça barulho! Vovô dorme!...
-Não corra assim!... - Não grite, Manuel!...

... É o que ouço naquela casa enorme,
Se brinco de soldado de papel!

O vovô na cadeira, bem calado,
Fica quieto... mas ri quando me vê.
Ri, porque assim não fica abandonado
Dormindo com o jornal que ele nem lê.

Eu bato no tambor todo contente,
Eu marcho e canto, e sempre cantarei!
Porque, mais do que sabe aquela gente,
Do que gosta o vovô eu é que sei!

O vovô me contou o seu segredo:
Ele foi pequenino como eu!
Brincou de soldadinho e então, sem medo,
Batia num tambor igual ao meu!...


Ninguém sabe essa história, e mais ainda,
Ninguém ouviu o que ele disse a mim,
Um dia que eu tocava a marcha linda
Que eu sei tocar tão bem! Olha: esta assim!

Ele me disse: Eu gosto que a meu lado
Você faça barulho, Manuel!
Pois penso que voltou todo o passado...
Que marcho de cabeça de papel!

E é por isso que eu nino o bom velhinho
Com meus cantos de guerra, meu tambor...
Ele gosta, coitado!.. e diz baixinho:
Marcha, soldado! ... Marcha, meu amor!...
(Maria Alves Veloso)



quinta-feira, 25 de abril de 2013

Céu x estrela


Mãe:
Eu sou o céu sem estrela.
Filhos:
Eu sou a estrela do seu céu.

O meu desejo

Eu gostaria muito de ser um balão!
Um balão muito grande, muito lindo,
De mutias cores;
-Verde, azul, amarelo, vermelho...

Um balão
Pra garoto pobre soltar,
Na noite de São João...

Um balão
Tão bonito
Que causasse inveja aos meninos ricos...

Um balão que subisse muito,
Muito alto,
Que furasse sem medo este céu que nos cobre!

Eu queria ser um balão bem bonito,
Só pra você soltar, menino pobre!
(Ramos de Carvalho)



terça-feira, 23 de abril de 2013

Taça x vinho


Mãe:
Eu sou a taça sem vinho.
Filhos:
Eu sou o vinho da sua taça.

Ambição

-Mamãe, se eu tiver juízo, eu ganho muita coisa no dia de Natal?
E o seu olhar em mim, tão confiante se pousa, que prometo, sorrindo!
-Ganha decerto. Ganha um brinquedo tão lindo, como não se viu igual!
-Mas o que?
-Uma boneca - um carro... um avião...
-Só isto? ... Pois, filhinha, acha que é pouco então?

E ela, torcendo o narizinho irreverente,
-Isso tudo mamãe ou papai dá pra gente...
Que não tivesse na cidade...
Um presente do céu, mas do céu de verdade...
Uma estrelinha,
Uma boneca que sorrisse,
Ou então umas asas de andorinha...
Ou... ou... não bem dizer!
Porque se é para ganhar só oque você disse
Que é preciso ter juízo... acho melhor
Não ter!
(Maria Eugênia Celso)




domingo, 21 de abril de 2013

Computador x tela


Mãe:
Eu sou o computador sem tela.
Filhos:
Eu sou a tela do seu computador.

Jangada

Minha jangada de vela,
Que vento queres levar?
Tu queres vento de terra,
Tu queres vento do mar?

Minha jangada de vela,
Que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas,
Das verdes ondas do mar
És como que pensativa,
Duvidosa a bordejar!

Saudades tens lá das praias,
Queres na areia encalhar?
Ou no meio do oceano
Apraz-te as ondas sulcar?

Minha jangada de vela,
Que vento queres levar?
(Juvenal Galeno)


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Rei x coroa


Mãe:
Eu sou um rei sem coroa.
Filhos:
Eu sou a coroa do seu rei.

Arrependimento

Aos pés do confessor, um trêmulo velhinho,
Mário desfaz em pranto a amarga confissão:
-Senhor Padre: pequei! Matei um passarinho
E arremessei depois, ainda quente, o ninho
À água do ribeirão.

Quanto tempo fiquei a olhar para a corrente,
Senhor Padre, nem sei!
Mas, senti dentro em mim, ao vê-la, de repente,
Essa angústia que esmaga o coração da gente...
Senhor Padre, chorei!

Desde então, noite e dia, a toda hora, escuto
Ao pé de mim, dorido, um pio de aflição!
Parece que ficou meu coração de luto.
Achei que foi cruel, que fui mesquinho e bruto.
Senhor Padre... perdão!

Consola-o docemente o trêmulo velhinho:
-Filho, com tua dor a tua culpa cai.
Deixa em paz, filho meu, o humilde passarinho!
Não levantes jamais a mão para o seu ninho!
Respeita-o! Tem-lhe amor! Eu te perdoo. Vai!

Desde esse dia, Mário é amigo predileto
Dos pássaros que vêm cantar no seu jardim.
E a custa de ternura, em paga desse afeto,
Enchem de asas e sons o beiral do seu teto.
Deus perdoou-lhe assim.
(Isabel Vieira de Serpa e Paiva)





quarta-feira, 17 de abril de 2013

Maçã x paraíso


Mãe:
Eu sou um paraíso sem maçã.
Filhos:
Eu sou a maçã do seu paraíso.

Os pobres

Aí vem pelos caminhos,
Descalços, de pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.

Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.

São tímidos? São covardes?
Tem pejo? Têm confusão?
Paral quando os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!

Guiai-lhes os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio de vossos braços,
Metade de osso pão!

Não receies que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.

Protegei os desgraçados,
Órfãos  de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão...
(Olavo Bilac)


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Azeitona x caroço



Mãe:
Eu sou o caroço da sua azeitona.
Filhos:
Eu sou a azeitona do seu caroço.

Lenda

Um dia o sol levantou-se aborrecido
E resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
Do nordeste brasileiro
E foi parar numa terra hospitaleira,
Onde a desgraça pouca é bobagem
E os homens amarelos e magros
Dão surra em onça com o chapéu de couro.

A gente da terra
Despertou a atenção do sol,
Que começou a corricar pelas praias,
E pelos campos sem fim,
Bebendo os riachos todos.

Estorricando os caminhos,
Derramando ouro
Sobre as mais imensas,
Ceias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
Que nunca mais abandonou a terra.
(Edigar de Alencar)


sábado, 13 de abril de 2013

Sangue x veia


Mãe:
Eu sou uma veia sem sangue.
Filhos:
Eu sou o sangue de sua veia.

Rosas

Segundo uma lenda antiga
Maria, com São José,
Fugindo à gente inimiga,
Transpôs caminhos a pé.

E à proporção que Maria
Deixava o rastro no chão,
Todo o caminho floria
De rosas em profusão.

Pelos trilhos e barrancos
Das esteadas, viu-se em breve
O estendal de rosas brancas
Tudo enfeitando de neve.

De um branco suave e doce
As rosas.Nenhuma havia
Pela terra, eu não fosse
Da cor dos pés de Maria.

Depois de tempos volvidos,
Ao peso de imensa Cruz, 
Pelos campos floridos
Um homem passa - Jesus!

E sobre o estendal das flores,
Do seu corpo o sangue vai
Caindo; e ele, entre mil dores
Não geme nem solta um ai.

Passou e pelas barrancas,
Sob as asas da s abelhas,
Dos tufos das rosas brancas
Brotaram rosas vermelhas.

Só duas cores havia
De rosas, que aqui registro:
A cor dos pés de Maria
E  acor das chagas de Cristo.
(Belmiro Braga)


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Caminho, verdade, vida


Mãe:
Eu sou uma pessoa sem vida.

Filho:
Eu sou o Caminho, a Vida, a Verdade da sua vida.


Onde está Deus

-Onde está Deus, papaizinho,
Que o meu olhar nunca vê?
Por que, apenas o adivinho,
Na luz... nas flores, no ninho...
No céu, na terra... Por que?

Por que não tenho a ventura
De nele os olhos fitar,
Como nas nuvens da altura,
Como os campos, no mar?

Quanto feliz eu seria,
Contemplando os olhos seus!
Dá-me a infinita alegria
De vê-lo, ao menos um dia!
Papaizinho, onde está Deus?

-Meu filho, sê bom, no mundo
Semeia a paz, o perdão;
Foge do mal negro e imundo,
e Deus verás, bem no fundo
Do teu próprio coração!
(Correa Júnior)




terça-feira, 9 de abril de 2013

Música x nota


Mãe:
Eu sou uma nota sem música.
Filhos:
Eu sou  a nota da sua música.

História de uma pamonha

Era um ovinho dourado
Que um dia foi enterrado.

Na terra ele inchou, inchou,
E em dez dias rebentou.

Não pensem que ele morreu:
Sua casquinha rompeu,
Mas, em vez de um pintainho,
Surgiu um broto verdinho.

O broto tanto espichou
Que em planta se transformou,
Com folhas muito alongadas
E cortantes como espadas.

E tinha, para se aguentar,
Raiz no chão e no ar.

Depois que a chuva caiu,
Um pendão de flor se abriu,
E, um pouquinho mais abaixo,
Uma boneca de cacho...

Uma boneca engraçada,
Cabeludinho a e barbada.

Mas, assim que ela cresceu,
Chegou alguém e a colheu
Despiu toda a pobrezinha
E ralou-a na cozinha.

E o sangue dourado dela
Pôs, com água na panela
Mexeu com colher de pau
E transformou-a em mingau.

Pôs-lhe açúcar, temperou
E, no fogo, a cozinhou,
E, por fim, deu-lhe mortalha
No vestidinho de palha.

A boneca transformou-se
No mais delicioso doce
Mas agora tem vergonha
De ser chamada pamonha...
(Narbal Fontes)


domingo, 7 de abril de 2013

Pastor x ovelha


Mãe:
Eu sou uma ovelha sem pastor.
Filhos:
Eu sou o pastor da sua ovelha.

Saci Pererê

Era uma vez um menino
Que tinha o triste destino
De trabalhar par ao mal.
Quebrava louças por troça
Botava fogo  na roça
Escancarava o curral.

Como Pedro Malasrte,
Era visto em toda parte,
Mas pulando com um pé só,
Que uma queda na cisterna
Foi que lhe quebrou a perna.
Conforme disse a vovó.

Caiu também na fogueira
Que ele acendeu na capoeira
Numa noite de São João;
E mesmo branco que fosse,
Dessa maneira tornou-se
Pretinho como carvão.

Mas veio um dia o castigo
Desse infernal frenesi:
Para o sossego da gente,
Ele virou de repente
No passarinho saci.
(Joaquim de Queiroz)


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Terço x contas


Mãe:
Eu sou o terço sem contas.
Filhos:
Eu sou as contas do seu terço.

Bento que bento

Um bolo estala na mão aberta
Do que chegou por último, a correr;
E, começa, de novo, o alegre brinquedo,
Alegre e simples, como vão ver.

O Pai, - que faz de "mestre"- está atento,
E grita logo, com voz bem forte:
-Bento que bento!
Respondam os filhos com alacridade:
-Frade!

Torna o "mestre" a gritar, olhando em torno:
Na boca do forno?

Respondam os filhos, como num eco:
-Forno!

-Fareis tudo que "seu mestre" mandar?
-Faremos todos!

Então o "mestre" pega a inventar:
-Cada um... cada um... cada um vá ao ribeirão
E traga um pouco d'água na mão!

Correm todos, vão tropeçando,
Pegam a água, voltam zunindo,
E quando chegam ficam esperando
O caçulinha que lá vem vindo.

Chega  por último, de mãos vazias,
-Que é da água que foi buscar?
-Pergunta o" mestre" fechando a cara.
Responde ele, fazendo beiço para chorar:
-Seu "mestre", a água caiu no chão,
Não houve meios de a carregar...

-Vai tomar bolo! - o "mestre" ameça,
E para dá-lo, levanta o braço,
Mas olha o filho, - tão pequenino!-
E, ao invés do bolo, lhe dá um abraço...
(Vinícius Meyer)




quarta-feira, 3 de abril de 2013

Mesa x refeição


Mãe:
Eu sou uma mesa sem refeição.
Filhos:
Eu sou a refeição da sua mesa.

São Francisco

Lá vai São francisco
pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo a noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho
Lá vai São francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, Irmão.
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.
(Vinícius de Morais)





segunda-feira, 1 de abril de 2013

Agulha x linha


Mãe:
Eu sou uma  agulha sem linha.
Filhos:
Eu sou a linha da sua agulha.

O leão e o camundongo

Um camundongo humilde e pobre
Foi um dia cair nas garras de um leoa.
E esse animal possante e nobre
Não o matou por compaixão.

Ora, tempos depois, passeando descuidoso,
Numa armadilha o leão caiu:
Urrou de raiva e dor, esforçou-se furioso...
Com todo o seu vigor as cordas não partiu.

Então, o mesmo fraco e pequenino rato
Chegou? viu a aflição do robusto animal,
E, não querendo ser ingrato,
Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal...

Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,
Pode sempre trazer em paga outro favor,
E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,
Deve os fracos tratar com caridade e amor.
(Olavo Bilac)

Customizado por Meri Pellens.